FILME 176 > MULHER-MARAVILHA (2017)

“Eu sou a portadora da tocha e a agora estou passando-a para Gal e Patty” foi a frase dita por Lynda Carter no tapete vermelho durante a première do filme Mulher-Maravilha (Wonder Woman, EUA, 2017) em Los Angeles. Mesmo que proferida com emoção e no calor do momento, Carter deu o ponta pé para a nova fase da personagem, pela qual ficou tão famosa lá na década de 1970.

Foi um longo caminho percorrido pela Princesa Diana de Themyscira, desde 1942, quando foi criada, passando pela bem-sucedida série televisiva de 1975, além de suas muitas versões e renascimentos dentro do universo de quadrinhos da DC. Porém ela nunca teve o real reconhecimento que merecia. Seus fãs sempre lhe foram fiéis, milhares de meninas e mulheres foram influenciadas por sua força e coragem e mesmo assim, não investiam na Mulher-Maravilha com a mesma certeza que em outros personagens como Superman e Batman. Felizmente chegou a vez de apostarem em uma das maiores heroínas já criada e ela mostrou que está pronta para seu lugar nesse novo Olimpo que Hollywood criou. Nessa briga de titãs entre DC e Marvel, onde os fãs são os vencedores. Mesmo com as reclamações sobre os filmes anteriores dessa nova fase da DC, é maravilhoso ver todos nossos heróis favoritos ganharem vida na tela do cinema. Pra mim, ver a Mulher-Maravilha é uma emoção maior, para a menininha que cresceu com Lynda Carter e que aprendeu a gostar cada vez mais da personagem conforme conhecia melhor sua história. Sentar hoje na sala do cinema e ver Gal Gadot vestir de forma tão perfeita a armadura azul e vermelha da personagem foi uma experiência incrível. Vamos falar sobre ela.

Diana é filha de Hipólita, Rainha das Amazonas, e vive em paz na paradisíaca ilha Themyscira, cercada por mulheres guerreiras. É seu desejo ser tão valente quanto elas, principalmente ao crescer ouvindo de sua mãe a história de como as Amazonas foram criadas por Zeus para ajudar a derrotar Ares e restabelecer a paz na Terra. Um dia Diana vê um avião de combate cair no mar perto da praia da ilha e nada até ele. Dos destroços ela salva o Capitão Steve Trevor e descobre que o mundo fora de sua ilha está em guerra. Ela passa a crer que aquela guerra significa que Ares está vivo e que é seu dever ir até o mundo dos homens combate-lo para restabelecer a paz, assim como as Amazonas fizeram no passado.

Com roteiro escrito por Allan Heinberg, que foi responsável pelo arco da Mulher-Maravilha dentro da série “Crises Infinitas” entre 2006 e 2007, o filme é uma enorme homenagem à personagem e aos fãs que acompanharam suas várias versões e origens. Heinberg costurou com inteligência todas as versões debatidas sobre a verdadeira origem da Mulher-Maravilha e preencheu muito bem alguns buracos, que sempre existiram, com soluções interessantes. Os motivos que levam Diana a deixar Themyscira são bem mais fortes que os vários outros já discutidos. Sua relação com Trevor é bem desenvolvida e longe da relação herói e vítima, onde tanto Diana quanto o Capitão têm suas razões para querer acabar com a Grande Guerra que está assolando o mundo.

A direção de Patty Jenkins é suave, o que combina perfeitamente com quem ela está retratando. Diana é uma jovem curiosa, que viveu por muitos anos em uma ilha protegida do resto do mundo, que tem como princípios o amor, o respeito, a coragem e a verdade. Ela não conhece a violência e nem o ódio. O filme tem três atos bem estabelecidos, onde as cores definem muito bem cada um deles. O grande feito de Jenkins é conseguir transitar entre esses atos de forma orgânica. Impressionante observar seu trabalho com “Monster”, um filme duro, cru, ultrarrealista, e agora essa nova produção, repleta da beleza de Themyscira em contraste com a feiura da Grande Guerra acontecendo na Europa, mas muito mais suave e repleto de elementos fictícios. Levou mais de dez anos para Jenkins dirigir uma nova produção no cinema, mas seu feito foi grande. O que ela realizou com o filme da Mulher-Maravilha deve abrir novas portas, assim como o filme deve mostrar à Hollywood que vale muito à pena investir nas super-heroínas com o mesmo afinco que estão investindo nos super-heróis.

Com certeza a grande estrela do filme é Gal Gadot, a modelo israelense que atuou em filmes de ação sem papéis muito expressivos, prova que merece vestir as botas de Diana e ser a nova face da super-heroína para a próxima geração. Sua escolha para o papel foi controversa, eu mesma não fiquei feliz com a escolha na época. Mas hoje, principalmente depois de ver o filme, aceito Gadot como a nova Mulher-Maravilha e me tornei fã da atriz. Seu comprometimento com o papel é enorme, seu carinho com os fãs é cativante e o respeito pela personagem foi o que me ganhou. A Diana de Gadot é quase inocente, mas forte e justa. É impressionante ver a personagem passar de menina a mulher durante o filme, transição muito bem trabalhada entre atriz e diretora. A química entre a atriz e Chris Pine, que interpreta Steve Trevor, funciona perfeitamente, recheada de piadas deliciosas, os atores constroem uma relação convincente e não uma paixão sem muito fundamento. O elenco de Mulher-Maravilha todo é muito bem escolhido. Além de Gadot e Pine, há Connie Nielsen como Hipólita, a maravilhosa Robin Wright como Antíope, Lucy Davis como Etta Candy, Danny Huston como o General Ludendorff, fora Ewen Bremner, Elena Anaya e David Thewlis.

Mulher-Maravilha mostra uma nova faceta da DC, uma disposta a tentar coisas novas. O filme tem como pano de fundo a Primeira Guerra Mundial, mas consegue acompanhar a suavidade de sua personagem. Sei que é curioso falar da Mulher-Maravilha e de suavidade, mas sim existe e essa era a intenção de William Moulton Marston lá no início de tudo quando a criou, uma super-heroína que fosse guiada pelo amor e não pela violência. Não há um desejo de vingança em Diana e sim um de justiça. Outro grande trunfo do filme é trazer à tona assuntos bem atuais, como o papel da mulher na sociedade, já que as Amazonas nunca foram subjugadas. Diana não consegue enxergar diferença entre homens e mulheres. Esse aspecto é tratado com muita naturalidade no filme, o que me leva a crer que ter uma mulher por trás da direção auxiliou nesse sentido.

A própria construção da personagem em super-heroína é bem arquitetada dentro da trama, Diana vive em um mundo de supermulheres, seu dia a dia é entre guerreiras que não temem nada, mas ela nunca se sentiu realmente ameaçada até ter que deixar sua ilha e ir para o mundo dos homens. Uma analogia muito bem construída já que ela sai de sua bela ilha colorida, cercada pela natureza e cai em uma Londres cinza, destruída pela guerra e essa é a melhor alegoria feita para “mundo dos homens” que alguém poderia construir. Sua visão de mundo é bem inocente e quase maniqueísta, para ela aqueles que não são honrados não são bons, até ela começar a perceber as nuances do que realmente significa ser humano.

Mulher-Maravilha é uma grande alegoria sobre o que é ser uma mulher em um mundo de homens. Realmente é preciso ser uma super-heroína e ele nos entrega a heroína que precisávamos. Ainda durante a première do filme em Los Angeles, Gal Gadot comentou sobre estar satisfeita por saber que suas filhas iriam poder ver uma personagem feminina forte, no cinema, para poder se espelharem e também por começar uma tendência de personagens femininas fortes no cinema. Essa é a primeira grande produção sobre uma super-heroína, que ela abra caminho para muitas outras. Muito obrigada Gal Gadot e Patty Jenkins por serem as pioneiras e por nos presentearem com um filme tão maravilhoso, em todos os sentidos.

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