COLUNA> O peso de ser uma mulher no Cinema

Há um pouco mais de uma semana, Sofia Coppola fez história ao ser a segunda mulher, nos 70 anos de existência do Festival de Cannes, a receber o prêmio de melhor diretor pelo filme “O Estranho que Nós Amamos”. Curiosamente, dias antes de ser anunciada como vencedora do prêmio, a crítica especializada estava dividida em relação ao trabalho de Coppola. Alguns afirmavam ser o seu pior filme, outros que era uma adaptação fraca do original de 1971, dirigido por Don Siegel, com uma “roupagem feminista” desnecessária. Com a revelação de Coppola como ganhadora do prêmio de melhor diretor, a crítica virou a seu favor, agora ela era uma grande diretora com um grande filme que rapidamente se encaixava no gênero “filme realizado por uma mulher”. Sim, porque a indústria cinematográfica ainda é tão machista que não consegue ver uma diretora como uma realizadora de um filme, precisa criar um “nicho”, uma forma de separar filmes dirigidos por mulheres dos filmes dirigidos por homens. O que é preciso ficar muito claro é que um filme é um filme, independente de quem o dirige. Ou melhor, independente do gênero de quem o dirige.

Nessa mesma edição do Festival de Cannes, a atriz Jessica Chastain, que fazia parte do júri, falou sobre como se sentiu incomodada com a forma que a mulher é retratada no cinema, principalmente alguns que ela assistiu durante o Festival. “Espero que quando incluam protagonistas femininas elas sejam mais parecidas com as mulheres que conheço em meu dia a dia. Elas são proativas, com pontos de vista próprios e não reagem apenas aos homens ao redor”, foi a observação da atriz. Dentro desse pensamento de Chastain vale frisar a importância do reconhecimento de diretoras como Sofia Coppola, ou Lynne Ramsay, que ganhou o prêmio de melhor roteiro por “You Were Never Really Here”. É preciso parar de achar que mulheres dirigem filmes voltados para um público específico. Não, elas dirigem filmes. É verdade que uma diretora vai retratar uma mulher de uma forma mais real, mas essa deveria ser a regra e não a exceção e nem considerado “cinema de nicho”.

Em uma escala maior, temos essa semana a estreia de uma enorme produção hollywoodiana, que engloba a nova mina de ouro dos grandes estúdios: um filme sobre um super-herói. Só que dessa vez é sobre uma super-heroína, uma superprodução da parceria Warner e DC que custou em torno de 150 milhões de dólares. “Mulher-Maravilha” é a primeira produção desse porte sobre uma protagonista feminina dos quadrinhos e dirigido por uma mulher, Patty Jenkins. Que mesmo com uma carreira brilhante, merecedora de muitos elogios, levou mais de 10 anos para conseguir dirigir seu segundo filme. Jenkins bateu o pé em relação a como o filme deveria ser construído, brigou pela cena principal, por entender como um super-herói é construído e mais ainda, como uma mulher reage a determinadas situações, e provou que um olhar feminino foi o maior trunfo do filme, que já rendeu, só nos EUA, 100 milhões de dólares.

Esse é o problema, Sofia, Jenkins e até Chastain precisam provar que são capazes. Suas realizações anteriores não agregam, apenas os fracassos. Certamente essas mulheres e todas as outras que estão lutando por conseguirem trabalhar com cinema, sabem o peso de ter que ser a melhor o tempo todo, porque o menor deslize se vira contra elas e tornam-se estigmas. Mas eu sou otimista, acredito que a discussão levantada em Cannes combinada com o sucesso de Jenkins, pelo qual torci muito, abram o caminho para as mulheres que vêm atrás. Que em alguns anos uma mulher dirigindo um filme seja natural, bom, na verdade é, mas a indústria precisa aceitar isso. Que em 20 ou 30 anos, Coppola, Jenkins, Ramsay e várias outras sejam reverenciadas e tenham suas obras analisadas exaustivamente como os grandes diretores são atualmente.

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