ESPECIAL > Como Danny Boyle Revolucionou o Cinema Britânico – 20 Anos de Trainspotting

 

Lembro perfeitamente quando uma amiga, com quem eu sempre ia ao cinema, me convenceu a ver Trainspotting (Reino Unido, 1996). Fui meio a contragosto porque tinha certeza absoluta que devia ser um filme pesado, dramático sobre um monte de drogados depressivos. Afinal, boa parte dos filmes sobre o assunto, na época, era assim. Por isso, quando começaram os primeiros acordes de Lust For Life de Iggy Pop como fundo para o icônico monologo de Renton (Ewan McGregor), percebi que seria um filme diferente. Uma hora e meia depois eu estava completamente apaixonada. Aquele não era um filme sobre drogados depressivos, era um filme sobre e para a minha geração.

Quando estamos no meio do furacão não pensamos em como ele vai afetar tudo a nossa volta, a única coisa que fazemos é prestar atenção no que está acontecendo. Só quando ele passa é que conseguimos enxergar tudo que ele afetou. Trainspotting é exatamente como um furacão, só que um que mudou tudo para melhor. Apenas agora, 20 anos depois, olho para trás e percebo no quanto esse filme influenciou o cinema britânico a partir de então. Também reconheço que só agora entendo perfeitamente porque ele é um retrato da minha geração. Mas vamos por partes.

Danny Boyle começava sua carreira, havia feito Cova Rasa, em 1994, uma comédia de humor negro sobre três amigos, David (Christopher Eccleston), Juliet (Kerry Fox) e Alex (Ewan McGregor) que são consumidos pela ganância. Esse primeiro filme já mostrava grande parte do talento do diretor, que ganhou o prêmio de Melhor Revelação do London Film Critics Circle. Assim, o diretor que mudara a linguagem do cinema britânico, aproximando-o do público mais jovem, era a pessoa certa para levar o livro cult, Trainspotting, para o cinema. Escrito por Irvine Welsh em 1993, o livro falava de forma muito direta e crua sobre os jovens de Edimburgo, principalmente dos sem muita perspectiva de vida e que, na verdade, não ligavam muito pra isso, apenas pro presente, sexo, drogas, muitas drogas, e música eletrônica. Mas, já voltamos a isso. Welsh encontrava seu caminho como um dos mais promissores escritores da sua geração, assim como Boyle avançava como revelação entre os diretores também de sua geração. Ao lado de John Hodge (roteirista de Cova Rasa) Boyle criou uma obra prima, um filme que conseguia falar muito abertamente sobre ser um jovem de 20 e poucos anos durante a insana década de 1990.

Trainspotting foi o segundo maior sucesso do Reino Unido, depois de Quatro Casamentos e Um Funeral. Curiosamente não é de forma alguma um filme “comercial”. Nada nele tinha algum apelo para o grande público, sua história acontecia numa Escócia decadente, seu elenco era composto por atores praticamente desconhecidos do grande público, sua trama era recheada de palavrões, cenas bem gráficas de violência, sexo, escatologia e, principalmente, de uso de drogas. Os atores falavam com um sotaque muito carregado, quase um dialeto, o que fez com que o filme fosse exibido com legendas nos Estados Unidos. A câmera nervosa acompanhava o estado de espírito dos personagens, além de misturar alucinações com realidade, como a famosa cena onde Renton entra e nada na privada do “pior banheiro do mundo” para resgatar supositórios de ópio. E, apesar disso, ou por tudo isso, Trainspotting ganhou o mundo enfiando o pé na porta, consolidando Danny Boyle como o maior representante de sua geração, levando consigo Ewan McGregor, que conquistou Hollywood com facilidade. Um ator com uma impressionante maturidade artística aos 23 anos.

Outro, ou talvez o mais importante, fator responsável pelo sucesso de Trainspotting é a honestidade com que ele dialogava (e ainda dialoga) com a geração de 20 e poucos anos. É verdade que muita coisa mudou de 1996 para cá, mas as dúvidas, os medos e a sensação de ser invencível sempre vão existir. Ao mesmo tempo, é um retrato muito fiel da geração 90. Enquanto o movimento grunge reinava nos Estados Unidos, o movimento clubber crescia na Europa, principalmente no Reino Unido. A música eletrônica “bate-estaca” combinada com drogas alucinógenas dava a sensação de total poder. Ao mesmo tempo, o medo da AIDS era crescente, o que tornava a trinca sexo, drogas e rock n’ roll, bem perigosa. A droga da moda era o êxtase, mas a heroína brilhava com força ainda, como tanto o livro, quanto o filme provam. Nada em Trainspotting é mentira, nada é exagero, viver o agora era muito mais importante do que pensar no futuro, como o próprio Renton prova ao recitar: “Escolha seu futuro, escolha a vida. Mas por que eu ia querer isso? Escolhi não viver. Escolhi outra coisa. E os motivos… Não há motivos. Quem precisa de motivos quando tem heroína?” Ao lado dessa honestidade brutal, de muito humor negro, há também uma trilha sonora que ganhou vida própria, ao misturar clássicos como Iggy Pop, Lou Reed e Joy Division a nomes que começavam a despontar na época, como Blur, Pulp e Underworld.

Olhando para trás, o que se percebe é que o que torna um filme cult é exatamente sua falta de pretensão. Trainspotting é um filme totalmente despretensioso, realizado por pessoas que começavam a entender a “vida adulta”, que buscavam direção, assim como seus personagens e que unidos pela sede de ser originais e revolucionários, acabaram criando uma obra que irá se perpetuar. Desde suas cenas icônicas, passando por seus diálogos inesquecíveis, personagens que amamos e odiamos com a mesma intensidade, tudo embalado pela melhor trilha sonora já montada para um filme até hoje. Se atualmente exaltamos nomes como Guy Ritchie, Edgard Wright e Martin McDonagh, com certeza devemos à Boyle e Trainspotting.

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