FILME 174> A BELA E A FERA (2017)

Na semana passada o site da revista Variety republicou um artigo rápido que mostrava a evolução das princesas da Disney desde a Branca de Neve até Moana. Ali no meio, lá no início dos anos 1990, está Belle como um divisor de águas, a princesa que não precisa ser resgatada, que não sonha com o príncipe encantado e que quer ser alguém interessante e conhecer o mundo, do que simplesmente se casar.

Além de ter salvado a Disney na época, foi a primeira animação a concorrer ao Oscar de melhor filme, completamente justificado pela qualidade do roteiro. Ganhou uma adaptação na Broadway e agora volta aos cinemas com uma versão em live-action, ou seja, com atores. Essa nova adaptação de A Bela e a Fera (Beauty and the Beast, EUA, 2017) começou com o pé direito ao escolher a atriz Emma Watson para o papel principal. Além de ávida leitora como sua personagem, Watson é uma jovem atriz de expressão na luta pelos direitos das mulheres e uma ótima influência para a geração mais nova.

Misturando a animação à peça, essa versão tem grandes números musicais que conseguem se encaixar muito bem à trama, que também ganhou uma atualização. Se a animação já era bem interessante para o público adulto, o filme é mais ainda, com discussões interessantes sobre ser independente, aceitação, consentimento e homossexualismo, o que causou uma enorme controvérsia antes mesmo do filme estrear. A história quase todo mundo já conhece, Belle vive em um pequeno vilarejo no interior da França com seu pai, ela adora ler e sonha em conhecer o mundo. Todos a acham estranha, até mesmo Gaston que mesmo assim deseja se casar com ela. Um dia seu pai vai até a feira em um povoado perto, mas não retorna. Belle sai a sua procura até chegar a um castelo meio abandonado. Lá descobre que seu pai foi aprisionado pela terrível Besta que o habita e acaba trocando de lugar com ele. Aos poucos Belle descobre que o castelo e todos os seus moradores foram amaldiçoados e que apenas o amor verdadeiro poderá quebrar o encanto.

Essa é uma alegoria bem óbvia sobre beleza interna e aprender a amar as pessoas pelo o que elas são e não pelo que aparentam. Porém o filme decide trabalhar mais em cima da personalidade de Belle e Gaston do que da Fera. Com um rápido prólogo descobrimos por que o belo príncipe é amaldiçoado e a partir de então a história nos mostra que a própria Belle também precisa se livrar de alguns preconceitos para poder se libertar. Ela se sente presa naquele pequeno vilarejo porque é tratada como excêntrica por todos dali, sonha em ter uma vida bem mais interessante do que a sua vida provinciana, como ela mesma canta, e guarda um pequeno ressentimento por seu pai, por não saber muito bem o que aconteceu com sua mãe. Todas essas nuances da personagem são muito bem trabalhadas, principalmente em sua relação com seu pai, interpretado por Kevin Kline. Não há nenhuma dúvida do amor de Belle por ele, mas não saber o que aconteceu com sua mãe a incomoda.

Nessa versão o personagem que mais me chamou atenção foi Gaston, muito bem interpretado por Luke Evans. Ele é muito mais desagradável do que na animação, seu ego enorme é a única coisa que importa. Quer casar com Belle exatamente porque ela não o quer e seu comportamento desprezível o torna apenas um homem repugnante muito mais do que um vilão. Ele tem profunda consciência de seus atos porque não acha que eles são errados, apenas não há bom senso. Gaston representa uma boa parcela de pessoas que conhecemos, que acredita em suas convicções e não consegue dialogar com o que é diferente. Mesmo seu melhor amigo sendo gay, o maravilhoso Le Fou, interpretado por Josh Gad, que é apaixonado por Gaston e por isso aceita seus defeitos. Gaston é tão centrado em si mesmo e tão fechado no que acredita, que nem percebe. Le Fou, que causou comoção na internet, é maravilhoso. Ele é a parte suave de Gaston e apesar de ser um dos alívios cômicos do filme, não é caricato.

A história é muito bem construída, o carinho entre Belle e a Fera é gradual e não abrupto, como na maioria dos contos de fada. Ela aprende a respeitá-lo como um amigo, assim como ele aprende a confiar nela. Dan Stevens como a Fera,no início, quando foi anunciado, não me disse nada porque, para mim, ele era o ator que estragou Downton Abbey pedindo para sair. Não tinha nenhuma ideia de seu talento como ator, apenas durante a série, até começar a acompanhar Legion. Ele me conquistou no primeiro episódio, percebi todo o potencial que ele tinha e então fiquei empolgada para vê-lo como a Fera. Não me decepcionei. Ele não é exagerado, seu personagem é bem introspectivo como deve ser, não há exageros, e vemos claramente um homem aprisionado em um corpo de uma besta, quase sem esperança e completamente arrependido por sua arrogância.

Além de todos os personagens humanos e a Fera, há os incríveis móveis e artefatos do castelo, que na verdade são os antigos empregados que também sofreram a maldição. O Lumiere de Ewan McGregor é adorável e cativante. Mas o mais legal é descobrir quem é quem ali entre relógios, xícaras, bules, piano e armário. Aliás, que enorme surpresa para mim descobrir Audra McDonald como cantora lírica. Quando eu via Private Practice não fazia ideia que a doutora Naomi Bennett tinha uma voz tão maravilhosa.

Podia continuar aqui por páginas e páginas comentando sobre o cenário, números musicais, detalhes, o vestido da Belle e várias outras minúcias do filme, mas acho muito mais interessante deixar que todos tenham a mesma experiência que eu tive. Claro que toda a magia do filme me encheu os olhos, claro que a menininha dentro de mim ficou encantada em ver tudo aquilo ali em um filme, mas com certeza a riqueza de cada personagem e os detalhes da história foram os elementos que me conquistaram definitivamente. A Bela e a Fera continua sendo uma das mais belas, complexas e interessantes história que a Disney já criou.

 

*Texto publicado originalmente no site Cheiro de Livro

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