FILME 171 > LA LA LAND (2016)

Há quem acredite que os grandes musicais morreram lá na década de 1950, mas isso não é verdade. Eles sempre estiveram presentes no cinema, em todas as épocas. Não adaptações de musicais da Broadway, mas obras originais que criaram novas vertentes. De Rocky Horror Picture Show, passando por Os Embalos de Sábado a Noite, Footloose, Fama, Flashdance, Dirty Dancing, chegando em Baz Luhrman e sua forma de recontar histórias através da música pop, o casamento entre cinema e música sempre agradou o público e sempre agradará.

Quando o diretor Damien Chazelle escreveu o roteiro de La La Land, em 2010, não conseguia ninguém que topasse produzir um musical com músicas inéditas sem uma base de fãs pronta. O que é uma besteira, por todas as razões que citei acima e, também, porque o filme Once, de John Carney, um musical contemporâneo, repleto de músicas inéditas, teve uma excelente recepção pelo público em 2008. Chazelle, então, escreveu Whiplash, um roteiro bem mais modesto, mas que falava também do mundo da música. O filme ganhou notoriedade e Chazelle chamou atenção. Cinco indicações ao Oscar para Whiplash tornaram possível que La La Land fosse produzido.

Sebastian (Ryan Gosling) é um chamoso e teimoso pianista de jazz que sonha em um dia abrir um nightclub como os da década de 1940. Mia (Emma Stone) é a menina da cidade pequena que vai para Hollywood ser atriz, divide o apartamento com três amigas e trabalha em uma cafeteria dentro dos estúdios da Warner. Claro que Mia e Sebastian se conhecem e acabam se apaixonando. Até aí, um roteiro típico de qualquer musical antigo, porém com um toque atual, onde os personagens são o mais próximo possível da realidade e que precisam equilibrar suas aspirações e relacionamento.

Los Angeles é a cidade para onde as pessoas vão ao tentarem realizar seus sonhos. Essa é a maior inspiração de Damien Chazelle e do compositor Justin Hurwitz, que compôs todas as músicas do filme e participa do projeto desde o início, quando ele e o diretor estudavam em Harvard. Falar sobre um casal de sonhadores, um jazzista que se recusa a perder sua essência, e uma aspirante à atriz, foi a forma de construir um filme recheado de cenas lúdicas, mas com uma trama pé no chão.

La La Land ganhou um subtítulo no Brasil: “Cantando Estações”, porque ele acontece em cinco atos divididos pelas estações, inverno, primavera, verão, outono e inverno de novo. Nos dois primeiros atos, Chazelle segue de forma correta a cartilha dos grandes musicais. Um grande plano-sequência com um divertido número musical abre o filme, depois nos apresenta os personagens principais e faz com que eles se conheçam. O primeiro ato é uma homenagem aos grandes musicais antigos, como Cantando na Chuva, Sinfonia em Paris e Roda da Fortuna. Figurinos impecáveis, cenários coloridos, lembrando a época do Technicolor. O segundo ato faz uma rápida homenagem aos musicais dos anos 1980, com uma festa na piscina, banda tocando, com direito à mocinha e o mocinho se estranhando.

Do terceiro ato em diante, Chazelle desconstrói o estilo, apresenta sua música tema aos poucos, “City of Lights”, e enquanto passeia por outros estilos de musicais, quebra padrões e clichês, culminando em um filme que parece muitos outros que você já viu, mas que é completamente novo. Por mais que determinada cena ou situação parece levar à determinada solução, Chazelle mostra que não, na vida real não é assim, e nos arrebata com uma história de amor lindíssima, sem firulas, sem grandes dramas, apenas amor. Com certeza uma grande homenagem aos filmes musicais de todos os tempos.

Com uma trilha sonora muito bem construída por Hurwitz, com canções que lembram as famosas músicas da era de ouro dos musicais, percebe-se a influência do jazz de Hurwitz e Chazelle em cada uma delas. Não há uma grande sinfonia, mas o epílogo que é tocado quase no fim, nos leva em um passeio no tempo e mostra que aquela é uma homenagem magnífica aos grandes musicais, ao mesmo tempo que dá partida a uma nova era de filmes do gênero.

O Sebastian de Gosling lembra Sinatra, Bogart, Kelly e até um pouco de Dean, com seu jeito mal-humorado, meio sisudo, meio brincalhão, mas que se derrete perto de quem ama. A Mia de Emma Stone é doce como Debbie Reynolds, decidida como Natalie Woods, brincalhona como Julie Andrews e melancólica como Ingrid Bergman. Sua interpretação da música “Audition (The Fools Who Dream)” é tão impactante e icônica quanto “I Dream a Dream” de Os Miseráveis. Merecedor de cada Globo de Ouro que ganhou, La La Land é realmente um filme para os sonhadores, para os amantes da música e, principalmente, para os amantes do cinema.

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