SÉRIES > STRANGER THINGS (T01)

Se você cresceu nos anos 1980, vai amar Stranger Things. Se não cresceu, mas ama os filmes dos anos 80, também vai amar a série. Agora, se você é fã de Stephen King, vai entrar em combustão de tanta felicidade. Stranger Things não é baseado num livro do King, não tem argumento dele, roteiro, nada, mas é uma homenagem ao universo que ele criou, sem dúvida alguma. Ou, como ele mesmo comentou no Twitter: “Assistir Stranger Things é como assistir aos melhores momentos de Stephen King.”

Mas a série não faz referência só ao universo do mestre do terror, faz referência a várias outras obras dos anos 80, criando uma homenagem espetacular. Tudo é tão bem feito. O cuidado estético é tão perfeito que, com 10 minutos do primeiro episódio, você esquece que a série é atual e acredita que foi produzida lá em 1983 mesmo, que só você não conhecia essa maravilha ainda.

Stranger Things começa com o desaparecimento de Will Byers (Noah Schnapp), que é perseguido por uma estranha criatura. Ao mesmo tempo, uma menina misteriosa que não fala muito, mas diz se chamar Eleven (isso mesmo, o número onze, interpretada por Millie Bobby Brown) aparece em Hawkins, uma cidade pequena em Indiana, nos Estados Unidos. Enquanto a mãe de Will, Joyce Byers (Winona Ryder), seu irmão, Jonathan (Charlie Heaton), e o Xerife Jim Hopper (David Harbour) saem em busca do menino, seus melhores amigos, Mike (Finn Wolfhard), Dustin (Gaten Matarazzo) e Lucas (Caleb McLaughlin) encontram Eleven e começam a perceber que os dois eventos estão ligados.

A linguagem e o ritmo da série seguem o estilo dos anos 80, de apresentar os personagens e trama de forma mais lenta, dando destaque a detalhes que serão importantes no fim, além de enriquecer a narrativa. Pode incomodar um pouco no início, mas conforme a história avança, referências vão surgindo, tornando a série ainda mais interessante. Steven Spielberg, John Carpenter, Rob Reiner, Chris Columbus e John Hughes são as referências mais óbvias que surgem, com cenas que lembram partes de filmes desses diretores, além de situações e diálogos que parecem saídos dos livros de Stephen King. Mas a estética da série também remete a diretores mais atuais, como J.J. Abrams e Nicolas Winding Refn. Esse universo retrô foi criado com perfeição pelos irmãos Duffer (Matt e Ross Duffer), que não são crianças dos anos 80, mas são obcecados pela década. Por isso não se assustem se perceberem cenas saídas de filmes como “E.T.”, “O Enigma de Outro Mundo”, “Os Goonies”, “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, “It: Uma Obra Prima do Medo”, “Conta Comigo” e muitas, muitas outras referências.

Os personagens são muito bem construídos em cima de clichês da década homenageada. O Xerife Hopper com um trauma do passado, que saiu da cidade grande para trabalhar numa cidade pequena e pacata, onde não precisa se preocupar, e apenas segue com sua vida. Joyce, a mãe solteira que precisa trabalhar em dois turnos para conseguir sustentar os dois filhos: o mais novo, Will, que é brilhante, e o mais velho, Jonathan, que não se encaixa na escola e é considerado o esquisito. O grupo de amigos pré-adolescentes, Mike, Dustin e Lucas, que sofrem bullying na escola e que lembra muito o “losers club” de It. A menina certinha, Nancy (Natalia Dyer), que namora o cara popular, Steve (Joe Keery); além da menina esquisita, Eleven, que ninguém sabe de onde veio, e que é uma mistura de Carrie com Charlie (de “A Incendiária”). – Como eu disse, MUITAS referências.

A atriz Winona Ryder, que passou por um período complicado em sua vida, afastou-se por um tempo de qualquer trabalho e volta triunfal como Joyce Byers, uma mãe que faz qualquer coisa pelos filhos, separada de um marido oportunista e que luta para ter o filho de volta, não importa que a cidade inteira acredite que ela enlouqueceu. Ryder, com certeza, mostra que deu a volta por cima com uma atuação emocionante e forte, completamente desligada da imagem de menininha que sempre teve no passado. Ela finalmente abraça o fato de ser uma mulher de 44 anos. É difícil envelhecer em Hollywood, principalmente porque os papéis para as atrizes acima de 40 não são tão marcantes, mas Joyce é o papel perfeito para uma atriz que continua talentosa e agora está mais madura. David Harbour também me conquistou como o Xerife Hopper (que me fez parar para pensar se esse nome não seria uma homenagem ao ator Dennis Hopper), um personagem que, no início, te faz acreditar que será desagradável, mas que te conquista e no fim você torce muito por ele. Aliás, tanto Joyce quanto o Xerife Hopper são personagens clichês de filmes dos anos 80, mas durante a série acabam sendo desconstruídos, assim como outros personagens, que fogem de estereótipos comuns da década. Joyce é muito lúcida sobre o quanto parece ser louca ao insistir em ir atrás de seu filho, e Hopper não cai nas armadilhas de seu personagem, não se deixa entregar ao passado e segue em frente, exatamente por acreditar em Joyce.

Mas quem brilha na série é o grupo de amigos de Will: Mike, Lucas e Dustin. Eles são os amigos que você gostaria de ter tido quando era mais novo. Além da cumplicidade que eles dividem, nos levam de volta a todos os grupos de amigos pelos quais nos apaixonamos lá nos anos 80, com total destaque para o divertidíssimo Gaten Matarazzo, que interpreta Dustin, que fala o que pensa a toda hora, além de sacar tudo muito mais rápido que os outros. A carismática Millie Bobby Brown, com seus enormes olhos expressivos, também se destaca e torna a misteriosa Eleven o integrante perfeito que faltava ao grupo dos meninos.

Outra estrela da série é a sua trilha sonora, disponível no Spotify no perfil da Netflix. Ela cria a ambientação perfeita, misturando The Clash, Joy Division, Toto, New Order, Jefferson Airplane, David Bowie, Foreigner, Echo & The Bunnymen e até Dolly Parton, além de uma trilha instrumental perfeita para os momentos mais tensos.

Stranger Things poderia ser só uma colagem de easter eggs de outros filmes, mas não seria tão brilhante. A série é brilhante por conseguir ser muito mais importante que todas as suas referências e se torna genial por conseguir transformá-las em um objeto de fundo, já que são bem sutis, porque sua trama é muito bem construída e segura a atenção desde o primeiro minuto até a última cena do último episódio. Ela tem uma narrativa mais lenta, é verdade, mas isso não é um defeito. Para mim é uma qualidade, porque a série não corre para contar a história, te dando detalhes aqui e ali para que você monte a história com ela e assim percorra o caminho junto. Uma qualidade muito importante em um thriller bem feito, que falta a muitas séries atualmente. É verdade que quando chega ao sexto episódio bate um desespero de que o mistério principal não seja revelado no fim da temporada, mas tudo começa a se encaixar e você percebe a importância do preciosismo até ali.

A direção é primorosa, como acho que deixei claro durante boa parte do texto. Até a forma como as cenas são feitas é completamente anos 1980. O figurino é perfeito e não apenas uma releitura de como as pessoas se vestiam na época; tudo é muito natural e o figurino não se sobrepõe à trama, é apenas mais um objeto de cena. Os créditos iniciais, com as letras em vermelho, imitando neon, e o fundo preto deixam claro o que esperar, e as cenas meio embaçadas, apesar da série ser filmada em 4K, te fazem acreditar que esse realmente é um tesouro escondido de 1983 e que ninguém sabia que existia.

Stranger Things é completamente obrigatória para quem ama cinema, ama boas séries, ama os anos 80, ama Steven Spielberg e, principalmente, ama Stephen King. Ela me fez sentir da mesma forma de quando vi “Twin Peaks” de David Lynch, lá em 1990: de estar testemunhando uma coisa incrível, genial e que pode ser um divisor de águas dentro da linguagem das séries daqui pra frente. É verdade que a própria Netflix já fez isso, ao nos apresentar esse formato de série fechada, com temporadas completas. Mas Stranger Things dá um passo além, ao voltar ao passado para mostrar como pode ser o futuro, através da importância de se ter referências e saber usá-las de forma inteligente.

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