FILME 164 > A BRUXA (2016)

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Antes de tudo é importante destacar que A Bruxa tem um subtítulo que não pode ser desconsiderado: A New England Folktale (um conto folclórico da Nova Inglaterra). Ou seja, ele já esclarece que o que você vai ver ali é uma fábula. E é exatamente isso que o diretor Robert Eggers nos apresenta, uma sombria fábula sobre culpa, pecado e todos os nossos outros demônios.

Desde pequeno o diretor é fascinado por contos de bruxa, e como muitos sabem, os Estados Unidos têm uma história profunda sobre povoados, ainda da época da colonização, onde meninas eram consideradas bruxas, pelas razões mais fúteis possíveis, e queimadas vivas. Isso gerou todo um folclore em cima destes acontecimentos que às vezes é retratado em filmes e séries, mas nenhum foi tão fundo quanto o de Eggers. Além de construir um filme de terror perturbador, que mantém o suspense durante sua hora e meia de duração, ele consegue discutir religião e relacionamentos familiares, levando o público a duvidar até do que é apresentado na tela.

História acontece em 1630 quando o patriarca de uma família de puritanos da Nova Inglaterra é afastado de seu vilarejo e paróquia por ser orgulhoso em suas crenças. A família vai viver em uma fazenda remota, onde vivem em situação precária graças ao solo pouco fértil para o plantio. William (Ralph Ineson) e Katherine (Kate Dickie) têm cinco filhos: a mais velha Thomasin (Anya Taylor-Joy), o filho Caleb (Harvey Scrimshaw), os gêmeos Mercy (Ellie Grainger) e Jonas (Lucas Dawson), e o bebê Samuel. Apesar das dificuldades, a família parece levar uma vida tranquila com alguns poucos animais, entre eles um bode negro batizado de Black Phillip pelos gêmeos, até o dia em que o pequeno Samuel desaparece sem deixar vestígios.

A trama acontece em um cenário bem típico dos contos de horror, onde Eggers monta uma história trágica que discute radicalismo religioso, família e confiança. O rapto do pequeno Samuel vira o estopim que aquela família precisava para jogar a culpa em cima da filha mais velha por causa de toda a má sorte que tiveram até ali. Aquela terra é amaldiçoada, aquela família está amaldiçoada, e a eles apenas resta rezar e se resignar ao desejo de Deus. Nesse ponto Eggers mostra um fenômeno muito comum até hoje: como o radicalismo religioso pode nos destruir, seja uma família, um povo, uma cidade ou até mesmo todo um país. Ele para na família, mas a dica é bem clara. Pode também não ser a intenção dele, mas essa leitura é bem óbvia.

Esse é o ponto que mostra porque A Bruxa é um grande filme de terror. Além de mexer com demônios internos, é uma alegoria sobre a vida atual, mesmo quando se passa na Nova Inglaterra do Século XVII, característica do terror gótico moderno. Não para por aí. Ele continua ao apresentar o quanto o radicalismo do pai pode ser venenoso para aquela família, o quanto seu orgulho pode destruir tudo. É quando o diretor mostra que o rapto de Samuel era a coisa menos assustadora que poderia acontecer no filme (e olha que é bem perturbador). A partir desse momento Eggers nos leva para dentro da vida daquela família e observamos tudo se deteriorar sem a menor piedade. A mãe que se entrega ao desespero e ao ciúme cego da filha em relação ao pai. O irmão que carrega o mesmo orgulho do pai, os gêmeos que brincam com crendices ao mesmo tempo as temem e a filha mais velha que tenta seguir em frente, mantendo a família sã, mas que é levada para dentro da loucura sem perceber.

O terror de A Bruxa se apresenta de forma sutil. Não há um serial killer, um monstro ou uma entidade do mal sedenta por sangue. Não há sustos bobos e óbvios. Eggers cria uma atmosfera de pura tensão durante todo o filme, com tomadas longas, cenas subversivas e o silêncio incômodo. Por vários momentos você duvida de sua própria sanidade em relação ao que está vendo, porque é tão claro, está ali, mas é tão absurdo, e se não estiver? Se aquilo que ele te mostrou não aconteceu? Se na verdade ele quer que você acredite que tudo não passa de uma ilusão ou um devaneio dos personagens? Essa é a principal razão pela qual o filme chamou tanta atenção durante o Festival de Sundance de 2015, ganhando o prêmio de melhor direção, e continuou conquistando fãs e prêmios durante todo o ano, até chegar aos cinemas.

A outra grande razão para que esse seja um grande filme é seu elenco, com destaque para Anya Taylor-Joy. Sua personagem, Thomasin, demonstra ser destemida e, talvez, a mais lúcida em relação aos acontecimentos. Ela quase que faz o mesmo papel que o público, ao tentar entender tudo o que acontece com sua família, ao mesmo tempo em que tenta se manter calma, porque percebe que pode ser a única forma de se salvar. Até entender que se entregar àquela loucura pode ser a única forma de se libertar.

O sucesso de Robert Eggers o levou a ser contratado para escrever e dirigir o remake de Nosferatu. Pessoalmente tenho muitos problemas com remakes, principalmente de filmes clássicos e eternos, mas ele me convenceu de que está pronto para vestir os sapatos de F.W. Murnau e homenageá-lo da forma correta. A Bruxa é um conto de horror gótico moderno em sua forma mais pura. Uma dessas obras de arte que surgem de tempos em tempos. Um filme que mexe com o imaginário de forma muito profunda, abrindo espaço para várias leituras. Um clássico imediato do terror atual.

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