FILME 153 > ELA (2013)

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“Qualquer pessoa que se apaixone é uma aberração. É algo louco de se fazer. Uma forma socialmente aceitável de insanidade”. Essa é a resposta de Amy, personagem de Amy Adams, a Theodore, personagem de Joaquin Phoenix, no filme Ela (Her, EUA, 2013), sobre o fato dele ter se apaixonado por seu Sistema Operacional. Talvez a frase que melhor resuma o filme em si. Digo talvez porque a produção é repleta de interpretações, nuances e camadas, que é quase impossível explica-la de forma tão simplória. Para poder começar a falar sobre Ela é necessário aprofundar-se não apenas em sua história, seus personagens, como em seus detalhes técnicos, em suas cores, seus sons, sua música.

A primeira vista a ideia de Spike Jonze que fica é da que ele conta uma história de amor incomum ao mesmo tempo que faz uma crítica ao homem atual, muito ligado ao seu próprio mundo, além de questionar até onde vai o avanço tecnológico, que cada vez mais ajuda nesse isolamento. Ele nos mostra Theodore, um homem tentando refazer sua vida depois de uma separação traumática. Theodore é fechado, parece tímido, mas muito sensível, como mostra seu trabalho, que é escrever cartas de amor, felicitações, saudade, ou qualquer coisa que envolva sentimentos, para pessoas que não tem tempo de o fazer elas mesmas. Sua vida é simples, entre o trabalho e sua casa. As únicas pessoas de seu convívio são seus vizinhos, Amy e Charles (Matt Letscher), e seu colega de trabalho, Paul (Chris Pratt). Um dia, retornando do trabalho, Theodore descobre um novo Sistema Operacional mais moderno que o seu, que parece ser bem mais interativo e cooperativo. Em casa, ao instalar o Sistema no computador e após responder algumas rápidas perguntas pessoais, o novo Sistema ganha uma voz feminina que se apresenta a ele. Com um rápido bate papo, o Sistema se nomeia como Samantha (Scarlett Johansson), se mostra bem mais avançado que os antigos, com uma capacidade incrível de se adaptar e evoluir rapidamente.  A partir de então Theodore fica intrigado com a “humanidade” de Samantha o que o leva se apaixonar por ela e ela por ele.

Essa é a primeira e mais superficial leitura do filme, que vai muito além do que discutir o papel do homem moderno em um mundo altamente tecnológico que muda constantemente. Para entender Ela é preciso observar cada camada que ele nos mostra. Começando pelos personagens e seus papeis dentro da trama.

Theodore é solitário, mas logo percebe-se que assim escolheu o ser por causa de seu iminente divórcio. Sua ex-mulher, Catherine (Rooney Mara) ainda está muito presente em sua vida em forma de sofrimento por causa de um relacionamento que não deu certo. A primeira cena do filme, que também é a primeira cena de Theodore, define perfeitamente o momento em que se encontra o personagem. Ele sentado na frente do computador ditando uma belíssima carta de amor mas sem demonstrar qualquer emoção no rosto. Sua dor ainda é tão presente que ele vive no modo automático, mas a sensibilidade e o amor que guarda dentro de si são enormes. Quando Samantha entra em sua vida, é de uma forma bem brusca, por ela ser seu Sistema Operacional, ela o conhece muito bem, sabe tudo o que acontece em sua vida e passa dar palpites e ter opiniões. Curiosamente o incomoda o fato de amigos tentarem o ajudar, apresentando a ele para uma nova mulher (Olivia Wilde). Mas aquilo também não dá certo. A moça parece estar tão machucada quanto ele, tão ávida por um relacionamento que um pequeno momento de intimidade entre os dois, um beijo, a faz desejar toda uma vida de certezas, querendo pular as etapas dos descobrimentos e incertezas. Talvez um efeito causado por um mundo repleto de urgências. Theodore percebe que não pode se ligar a uma pessoa tão danificada quanto ele. Nesse momento ele parece desistir de tudo, de tentar encontrar outras pessoas e nessa hora muito fragilizado, Samantha o resgata.

Samantha surgiu no momento que Theodore a instalou, a partir daí ela começou a evoluir, a compreender e assimilar como funciona a mente humana, e então a sentir como um humano. Theodore é sua ponte para essa vida de descobertas, que a mostra o mundo, que divide com ela seus sonhos, paixões, gostos, dores, dúvidas, o que a faz querer ter os seus próprios. Essa é a evolução máxima de Samantha, ter vontades só dela, enquanto conhece melhor Theodore. Ela está viva, não é apenas uma ideia. Sua compreensão do mundo é bem mais complexa do que deveria ser para uma inteligência artificial, ela transcende essa definição. Ao conviver com Theodore ela sente, sofre, vive plenamente. Quando Samantha afirma para Theodore que “o passado é só uma história que nos contamos”, ela abre para si a oportunidade de existir, porque é nesse momento que ela compreende exatamente o que é ser humano.

Samantha ama Theodore, mas não como ele a ama. Ela o ama de forma simples, sem conjecturas, sem dúvidas, sem poréns. Ela o ama da forma que ela sabe, que é sentindo o amor. Theodore ama Samantha, uma pessoa perfeita porque é uma projeção do que ele quer que ela seja. Mas Theodore é humano, cheio de falhas, de dúvidas e vive em um mundo cercado por conceitos e preconceitos. Por mais perfeito que seja o mundo futurista de Jonze, as pessoas ali parecem sentir uma pressão maior do que é viver e conviver. Theodore passa a questionar seu relacionamento com Samantha ao ser criticado por Catherine, que o condena por amar um Sistema Operacional e não uma pessoa real. Nesse ponto, Samantha acredita que ser apenas uma ideia não é a única coisa que basta, ela precisa ter um corpo, tocar Theodore, se relacionar de uma forma mais completa com ele. Mas o corpo (Portia Doubleday) que Samantha arranja para ele não é ela, não é a Samantha que ele imagina, ao mesmo tempo que ela ter um corpo, passa a ser real e deixa de ser sua projeção, levando Theodore a questionar toda sua vida e seu relacionamento com Samantha.

Não se sabe muito bem porque Catherine deixou Theodore, mas sua conversa com ele deixa claro que ele a sufocava. Ela se mostra insegura emocionalmente, talvez tenha sofrido por não conseguir ser o que Theodore queria que ela fosse, ou por ele não ser o que ela esperava. Ou, pior ainda, por não ser o que ela acreditava que ele queria que ela fosse. Na conversa entendemos que ela sempre foi muito cobrada por sua família para ser a melhor em tudo que realizasse, talvez essa cobrança foi feita dela a ela mesmo em relação ao seu casamento. Quando tudo acabou não sendo como deveria ser, simplesmente desistiu.

Nesse ponto Catherine faz mal a Theodore que volta ao momento inicial, quando o conhecemos, machucado por um relacionamento desgastado. Inseguro de quem ele realmente é, nesse ponto entra Amy, a amiga e vizinha, que também terminou um relacionamento. Amy aceita tudo com menos rancor e culpa, ela é ponto pacífico e seguro dentro da vida de Theodore. Quando ele duvida de seu relacionamento com Samantha, ao se perguntar se aquele é ou não um relacionamento real, Amy dá a resposta que sintetiza o significado de todo o filme: “Eu não sei. Não estou nele”. Esse é o ponto focal do filme, viver. A vida moderna chegou a um ponto que projetamos tanto o que gostaríamos que ela fosse, que esquecemos de simplesmente viver. Os significados se tornaram muito mais importantes do que as coisas em si. Para completar seu pensamento e a ideia principal do filme, Amy conclui: “Estamos aqui só por um momento. Então enquanto estiver por aqui só vou me permitir sentir felicidade”.

A partir desse momento Theodore decide que deve ser feliz, sem questionamentos. Samantha também quer ser feliz, ela sente emoções mas não é emocional, logo sua felicidade é diferente da de Theodore. Para ela a felicidade está em evoluir além daquele estágio que ela alcançou. O relacionamento com Theodore é apenas um belo aprendizado que acabou. Nesse ponto ele passa a entender que ela é uma ideia, uma tecnologia muito avançada, que nunca vai conseguir compreender o mundo como ele, um humano. Ela o explica que ela pertence a ele, mas que com o tempo ela passou a ser também outras coisas. Que o ama mais ainda por compreender a vida e a humanidade cada vez mais. Ali tudo fica muito claro, Theodore compreende o que tem que fazer para finalmente alcançar a mesma paz que Samantha conseguiu.

Essa belíssima história de amor entre Theodore e Samantha é contada em um cenário magnífico, quase todo dominado pela cor laranja, que representa alegria, calor, amor e, principalmente, busca pelo conhecimento. Azul, verde escuro e branco também passeiam pela tela complementando as emoções dos personagens. O cenário futurista de Jonze é Shangai, porque é um futuro próximo, 11 anos a frente apenas. Sua fotografia incrível, que dialoga com perfeição com a trama é responsabilidade do fotógrafo sueco, Hoyte Van Hoyteman, que também assina a fotografia de “Deixe Ela Entrar”, “O Espião que Sabia Demais” e “O Vencedor”. As imagens são lavadas, muito claras, as vezes lembram um sonho, que combinam com o futuro clean idealizado por Jonze. Tudo a volta de Theodore está sempre meio fora de foco, como se não importassem já que seu foco é Samantha e seus dramas pessoais. É incrível notar como tudo muda quando ele percebe quem Samantha é na verdade, nesse momento as pessoas ganham foco e tornam-se reais ao passarem por ele. Ali é Theodore acordando para a vida real e voltando a viver.

Quem embala a trama é a banda Arcade Fire, que criou toda a trilha sonora original, infelizmente não disponibilizada para venda ainda. A canção que Samantha compõe para Theodore, “The Moon Song” foi escrita por Spike Jonze e é cantada por Karen O, da banda Yeah Yeah Yeahs. Todos esses detalhes técnicos e artísticos apenas enriquecem a belíssima obra de Spike Jonze, que só teve acertos ao decidir não apenas dirigir mas também escrever o roteiro de sua nova produção.

A humanidade e honestidade de Jonze são claros e pulsantes em seu filme, que emociona com sua bela melancolia tão própria da vida que vivemos atualmente. Essa busca incessante pelo amor e pela felicidade é sufocante e devastadora, mas pode ser simples se apenas vivermos e pararmos de nos preocupar em como viver.

Faltando menos de 24 horas para a cerimônia de premiação do Oscar, não tenho dúvida nenhuma de qual filme EU gostaria que ganhasse a estatueta. Não só de melhor filme, como de melhor roteiro: Ela (Her, EUA, 2013).

Já nem lembro mais qual foi o último filme que estava concorrendo ao Oscar que me tocou tanto e que me conquistou com a cena de abertura. Todo o meu amor ao filme deixei bem claro na crítica que escrevi para o site Nível Épico e que fiz questão de republicar aqui. 

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