FILME 142 > FAROESTE CABOCLO (2013)

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A volta dos posts do 366 FILMES vem com uma novidade: um convidado!

A crítica de hoje foi escrita por Victor Naine. Meu ilustre convidado é graduado em Filosofia, mestre em Estética, fotógrafo pós-graduando em Fotografia e diretor de fotografia da Mítica Filmes.

Victor foi convidado para assistir a pré-estréia especial do filme FAROESTE CABOCLO e deixa aqui suas impressões:

Bati minha testa!

~ Do filme Faroeste Caboclo, de René Sampaio

Por Victor Naine

Ao convite da atriz Bruna Spínola (futura esposa do diretor), fui chamado para a pré-estreia do filme que está no aguardo dos fãs de Legião Urbana, há algum tempo.

Ao sentar na cadeira com o meu irmão, pouco antes de se apagarem as luzes, não esperava nada. Me mantive neutro. Até então, não conhecia o trabalho de René Sampaio. Todavia, devo iniciar dizendo que eu não estaria escrevendo, senão pelo simples fato de valer a pena. Como Walter Benjamin, penso que só a boa arte é criticável. O resto é silêncio.

Esbarrei com alguns amigos, peguei minha pipoca e sentei. O filme começa com o já conhecido riff da música de Renato Russo. Me bastaram apenas duas cenas para eu olhar para o meu irmão – olhar cintilante de esperança de um bom filme e de um futuro promissor para o diretor e sua equipe. O enquadramento de João de Santo Cristo (Fabrício Boliveira), com o tratamento impecável de cor, rasgado pelos grãos da película me fascinaram. Míope como sou, busquei olhar mais de perto, frisar as sobrancelhas e apertar os olhos como se fecha o diafragma de uma objetiva. Eu queria ver a escolha do grão utilizado – sais de prata! A alquimia fotográfica estava em movimento, narrando a história do nosso povo, através de uma releitura crítica da tragédia faroéstica de um jovem negro – “o mais escurinho ali”, como diz o preconceituoso Marco Aurélio (Antonio Calloni).

Admirei profundamente a fotografia do filme – à primeira vista – mesmo quando a profundidade de campo foi reduzida. Câmeras na mão, outras dentro de um balde (genial!), lentes anguladas, em close, muitas vezes trazem realismo e aquela sensação angustiante do Dogma 95, de Lars von Trier. O pantone do Cerrado (da infância de João, em flashback) dialoga com os fundos da casa do traficante Jeremias (Felipe Abib), bem como com a cor da indumentária que trazem toda a atmosfera dos antigos westerns, os aclamados “filmes de bang-bang”. Mas, desta vez, o protagonista é um anti-herói (ou um herói do povo?), abatido pelo sol e pelas dores do passado, que se vê errando em suas escolhas. Errando? Escolhas “certas” nunca o levariam à sua tragédia com Maria Lúcia (Isis Valverde), o amor do seu destino shakespeariano.

A referência ao faroeste fica clara na cena de João com Jeremias. Referências que, confesso, terem me assustado antes de ver o filme. Fiquei um pouco receoso com a possibilidade de ser um filme estritamente descritivo e “didático” na relação com a letra de Renato Russo. Mas a Winchester-22 estava lá! René me passou maturidade que vem sendo desenvolvida desde Sinistro (curta-metragem de 2000, que pude ver esses dias) e isso deve preencher o peito dos novos cineastas de esperança – ainda mais de crescer com o cinema nacional. Faroeste Caboclo ainda tem “algo” do Cinema Novo, mas já vejo ali uma ousadia, mesmo diante de um tema com tamanho apelo popular – não são poucos os atuais ou antigos jovens que têm de cor a letra de Renato! Como disse o diretor na pré-estreia do Rio, a tentativa foi de transformar a experiência de uma melodia de nove minutos em uma narrativa de cem… sem fazer bobagem!

A trilha sonora não deixa a desejar e gera no espectador uma experiência sinestésica. Vi algo de “tarantinesco” ali, moderado e menos irônico… Ironia, por sinal, que é revelada numa janela indiscreta com o amor (em fervor!) de João e Maria Lúcia, enquanto o pai careta da menina lê um livro noutro cômodo. O espectador é o voyeur, numa clara homenagem ao Rear Window, de Hitchcock.

René usou do improviso dos atores para fazer algumas cenas serem bem próximas do público. Se há um punctum no cinema (como diria Roland Barthes, “aquilo que acrescento à foto e que, no entanto, já está lá”), este foi, para mim, quando Maria Lúcia, ainda esperançosa na relação afetiva e perigosa, bate com a testa no vidro do carro (ou será que foi a Isis? – eu diria que ambas!).

Enfim, sem spoiler, resumi as minhas sensações (técnicas ou subjetivas) a cerca do filme e garanto que vale sair de casa no dia 30 deste mês para ver com a família e amigos. Romance, com violência e ação moderadas é uma fórmula que funciona como ponto de partida para o mercado cinematográfico. Um clichê? René fez isso com apuro estético e é isso que importa: é possível fazer arte no Brasil.

Além da crítica escrita, Victor e seu irmão, Pedro Naine, conversam sobre o filme e cinema, no CINESTESIA, vlog da Mítica Filmes.

Para conhecer um pouco mais sobre a Mítica Filmes, curtam a página deles no Facebook.

Espero que todos curtam tanto quanto eu a participação especial do Victor e continuem acompanhando o blog, com novos textos meus e quem sabe, novos convidados.

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