FILME 138 > ANNA KARENINA (2012)

AKposter

Por Raphaela Ximenes

*Quando Leon Tolstoi escreveu Anna Karenina em 1878, ele classificou seu romance como uma “ficção realista”, forma pela qual o livro foi recebido e lido em todo o mundo. Grande clássico da literatura russa, ele é muito mais do que uma história de romance, mas um retrato da sociedade russa antes da revolução, que contava com uma nobreza decadente e uma classe trabalhadora organizada e pronta para mudar o país.

O livro já ganhou várias adaptações para o cinema, sendo a mais famosa a de 1935 com Greta Garbo no papel título. Mas todas centram suas tramas no caso amoroso entre a famosa aristocrata com o sedutor Conde Vronsky, deixando as tramas paralelas apenas como pano de fundo, sem muita importância.

Com mais de dez adaptações apenas para o cinema, esse é um clássico que todos conhecem e admiram, mas nem todos ainda se importam em assistir a mais uma versão no cinema. Por que, então, assistir a essa idealizada por Joe Wright? Porque ele consegue diminuir um pouco o impacto da dramaticidade exacerbada da história, montando-a como se fosse uma opereta, com atos definidos e cenários de teatro.

Anna Karenina (Reino Unido, 2012), a versão mais recente, tem roteiro assinado por Tom Stoppard, o mesmo responsável pelo maravilhosoBrazil, O Filme (de 1985 e dirigido por Terry Gilliam), além do roteiro de Shakespeare Apaixonado (de 1998). Para Stoppard, sem dúvida, o mais importante é contar a história de Anna Karenina e seu amante, mas a crítica social também aparece de forma contundente, principalmente na forma do marido de Karenina, um burocrata que trabalha para o governo, Alexei Karenin.

Tudo acontece quando o irmão de Karenina (Keira Knightley), o Príncipe Stepan Oblonsky (Matthew Macfadyen) pede ajuda para que ela converse com sua esposa, a Princesa Daria (Kelly Macdonald), e que ela não o deixe por ele a ter traído. Karenina vai de São Petesburgo até Moscou para ajudar o irmão e convencer a cunhada que não abandone sua família. Ao mesmo tempo, o fazendeiro Konstatin Dimitrivich Levin (Domhnall Gleeson), velho amigo de Oblonsky, o visita e confessa sua decisão em pedir a irmã de sua esposa, a jovem Katerina Alexandrovna Shcherbatsky (a adorável Alicia Vikander), em casamento. Porém, Katerina está apaixonada pelo sedutor Conde Vronsky (Aaron Johnson) e acredita que ele irá pedi-la em casamento. No trem para Moscou, Karenina conhece Vronsky e a atração mútua é instantânea. No baile, onde a jovem Katerina acreditava que Vronsky a pediria em casamento, o Conde prefere dançar com Karenina, despertando a raiva da jovem e a curiosidade de todos. Temendo o que poderia acontecer, Karenina volta para seu marido, Alexei Karenin (Jude Law), em São Petersburgo, mas Vronsky resolve segui-la até lá, passando a frequentar todos os eventos sociais em que ela esteja. Por fim, Karenina cede à sua paixão por Vronsky e eles se tornam amantes.

A primeira coisa que salta aos olhos nessa nova versão é o cenário. Montado como um teatro, o filme abre como uma peça, com uma cortina e um palco, onde o cenário do filme está montado. O elenco passeia pelos cenários que lembram a Rússia do fim do Século 19, assim como pela coxia, para mostrar o que acontecia além da trama principal. É genial como Wright monta sua história nesse cenário teatral como uma alegoria sobre aqueles que viviam uma vida de aparências. A família do Príncipe e suas indicrições, as festas da alta sociedade e tudo o que os envolvia. Um mundo onde um vive representando para os outros. Na coxia encontramos aqueles que estão notando que o país deve mudar, que há mais além do que é mostrado. Essa opereta de Wright perde seu tom artificial conforme Karenina se entrega a Vronsky. As cenas dos amantes são normalmente em espaços abertos, mostrando toda a liberdade que a personagem sentia ao lado de seu amado. Assim como as cenas em que vemos o fazendeiro Levin procurando por uma esposa. Mostra como aquele personagem está fora do jogo de aparências da aristocracia russa.

Exatamente por todo esse cuidado estético muito bem ligado ao roteiro, onde um acompanha o outro. A paixão, a entrega, a loucura e a solidão de Karenina, tudo está muito bem relacionado durante toda a produção. A belíssima dança que aproxima Karenina e Vronsky, o cenário onde trabalha Karenin, que tem nítida influência no cinema expressionista alemão. O jogo de sedução entre Levin e Katerina, o quarto pequeno e aconchegante do filho de Anna e o quarto escuro e abafado em que ela fica quando doente. Detalhes, milhares de detalhes, que não passam despercebidos e que dialogam diretamente com a cena que está acontecendo.

Mas não é apenas de belas cenas que se faz um filme, atuações tão impressionantes quanto o cenário, ajudam a incrementar a qualidade do filme, começando por Keira Knightley e sua Karenina alegre, suave, que consegue perder o viço e entregar-se ao desespero com muito lirismo. Aaron Johnson, que mesmo tão jovem, 23 anos, consegue adequar-se a qualquer papel que represente; seu Conde Vronsky é adoravelmente sedutor. Jude Law está irreconhecível como o pacato e frio Karenin. Mas é a adorável Alicia Vikander, que encanta com sua juventude quase virginal, muito equilibrada, que consegue superar seu coração partido com total elegância.

Parece que os russos não gostaram da visão desse inglês para um dos maiores clássicos da literatura de seu país, o que é uma pena, porque inibiu um pouco a distribuição do longa no resto do mundo. Mas não se deixe influenciar, Anna Karenina é uma bela obra que desconstrói o clássico exatamente para homenageá-lo.

*Crítica publicada no site NÍVEL ÉPICO no dia 15/03/2013

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