FILME 125 > TO ROME WITH LOVE (2012)

Por Raphaela Ximenes

No meu top 5 de diretores favoritos, Woody Allen está em segundo lugar, logo atrás do Almodóvar. Mas não digo que gosto dele porque é bacana dizer que se é fã do Woody Allen. Adoro o trabalho dele, porque amo suas neuroses, a forma como ele constrói suas tramas e seus personagens, e acima de tudo, por perceber que ele não tem nenhum um pouco de medo de rir de si mesmo. Desde o começo de sua carreira como diretor, Allen sempre ousou e conseguiu se manter atual, por isso até hoje é cultuado e adorado.

Porém, não é muito querido em seu país de origem, os EUA. E como ele mesmo previu, foi preciso sair de lá para finalmente ser reconhecido como o gênio que é. Isso aconteceu no ano passado com sua deliciosa comédia “Meia-Noite em Paris”, que levava seu personagem e o público a um belíssimo passeio pela Paris dos anos 20. Amei o filme, que é impossível não gostar, mas preciso confessar que prefiro o Woody Allen de TO ROME WITH LOVE, onde ele volta a antiga forma, atua e cria uma maravilhosa homenagem ao seu cinema favorito, o italiano.

Falei sobre tudo isso e um pouco mais  na crítica que fiz para o site Nível Épico, que foi publicada em 05 de julho, e agora, republico na íntegra aqui:

No documentário, Woody Allen: a Documentary, produzido para o programa American Masters, do canal PBS (canal público norte-americano), o diretor conta que sempre admirou o cinema italiano e como seus grandes diretores sempre o influenciaram. Essa fala ocorre quando Allen está explicando o que o motivou a realizar Memórias, seu filme de 1980. Mais de trinta anos depois, Woody Allen realiza um filme que, mais do que ser influenciado pelo cinema italiano, é uma bela homenagem ao cinema e à Roma.

Para Roma, com Amor (To Rome with Love, EUA, 2012) conta quatro histórias envolvendo romanos e norte-americanos que estão de passagem por Roma. Depois de Londres, Barcelona e Paris, a capital italiana é a nova “musa” do diretor, que se inspirou no Decameron de Giovanni Boccaccio para escrever seu roteiro. Sem qualquer ligação entre os personagens e as histórias, Woody Allen encontra um denominador comum em cada uma delas ao falar sobre a fama, ou a busca por ela de alguma forma, fator que sempre o incomodou. Lá no fim da década de 70, Allen lançou sua obra mais famosa, Manhatan, talvez um de seus filmes mais aclamados e, por essa razão, seu menos favorito. Em resposta, realizou, logo em seguida, Memórias, uma enorme alfinetada em todos aqueles que o elogiaram. Agora, fica no ar a dúvida se o diretor não se repetiu, mesmo que inconscientemente. Seu filme anterior, Meia-Noite em Paris, foi elogiadíssimo em todo o mundo, sendo o mais rentável dentro da cinematografia do diretor. Em seguida, surge Para Roma, com Amor, que aproveita o exagerado senso de humor italiano para construir suas histórias, todas com pitadas de críticas, dessa vez bem mais sutis.

Nesse longa, quatro divertidas histórias são contadas como anedotas da vida romana. A famosa canção Volare abre o filme, que é apresentado por um guarda de trânsito. A partir daí são introduzidas as quatro histórias. Uma turista norte-americana que conhece um italiano, se apaixonam e ficam noivos, obrigando os pais da moça a irem para Roma conhecer o futuro genro e sua família, o que resulta em uma curiosa parceria entre o pai da noiva e o pai do noivo. Um jovem casal recém casado, que deixa o interior para tentar a sorte em Roma, mas acaba passando por experiências bem além do que esperava. Um jovem arquiteto norte-americano que vive em Roma com sua namorada e acaba envolvido em um triângulo amoroso. E o homem simples e normal, que todos os dias faz as mesmas coisas, até o dia que sua vida muda completamente, quando todos acreditam que ele é muito famoso e todos os seus passos são filmados, fotografados e ele vira uma celebridade instantânea.

Misturando seu senso de humor ácido ao estilo italiano de fazer comédias, Woody Allen aposta também no surrealismo, com o qual já flertava em Meia-Noite em Paris, para construir a trama de seu filme atual. Todas as histórias contam com um elemento absurdo, inspirado na tentiva de Woody Allen criar seu Decameron.

Em uma história Allen é Jerry, um produtor musical de óperas aposentado, casado com uma psiquiatra (Judy Davis). Ambos vão a Roma encontrar com sua filha, Hayley (Alison Pill), e conhecer seu noivo italiano, Michelangelo (Flavio Parenti). O rapaz é filho de uma dona de casa e de um dono de uma funerária, Giancarlo (Fabio Armiliato). Jerry descobre que Giancarlo tem uma voz magnífica de tenor, porém também descobre que ele só consegue cantar daquela forma quando está no chuveiro. Assim, Jerry decide que ele deve se apresentar nos palcos de toda Itália, mas embaixo do chuveiro.

Em outro momento, Antonio (Alessandro Tiberi) e Milly (Alessandra Mastronardi) são recém casados que vivem em uma pequena cidade no interior e decidem se mudar para Roma. Lá Antonio vai encontrar seus tios, que lhe conseguirão um bom emprego. Para impressionar os parentes do marido, Milly decide ir ao cabelereiro, mas se perde em Roma e acaba em um set de filmagem, onde encontra seu ídolo, o ator Luca Salta (Antonio Albanese). Enquanto isso, por causa de um mal entendido, Antonio precisa fingir que a prostituta Anna (Penélope Cruz) é sua esposa.

Já o arquiteto John (Alec Baldwin) decide caminhar pelas ruas de Roma para relembrar sua juventude e conhece o jovem arquiteto Jack (Jesse Eisenberg). Jack vive com sua namorada Sally (Greta Gerwig), que o conta que eles receberão a visita de sua melhor amiga, Monica (Ellen Page). Monica é uma atriz em início de carreira, por quem Jack acaba interessado, apesar dos avisos de John para que não se deixe levar por seus encantos. A presença constante de John em momentos cruciais da vida de Jack, deixa claro que ali é o presente visitando o passado e tentando consertar alguns erros.

Por fim, Leopoldo (Roberto Benigni) é um homem comum, casado, com dois filhos e um emprego medíocre. Todos os dias, ele acorda no mesmo horário, toma café com sua família e vai para a empresa onde trabalha. Um dia, enquanto caminhava para o carro, Leopoldo é envolvido por uma multidão de fotógrafos e repórteres que mostram um interesse por tudo que ele faça ou fale. Em minutos Leopoldo se torna uma enorme celebridade em Roma, sendo convidado para todos os eventos e assediado pelas mais belas atrizes e modelos.

Mesmo contadas entremeadas, nenhuma das quatro histórias se encontram. Em todas Woody Allen deixa sua marca, mas são nas história do tenor que apenas cantava no chuveiro e na de Leopoldo e sua misteriosa fama, que o diretor é mais explícito, principalmente em relação ao seu próprio personagem. Jerry, como afirma sua esposa, é um “homem à frente de seu tempo”, que nunca foi compreendido por suas tentativas de inovar nas montagens das óperas que produzia. Woody Allen nunca foi reconhecido dentro de seu país. O diretor é adorado e cultuado em todo o mundo, menos nos EUA, que nunca compreendeu muito bem seu senso de humor. Além do fato de Jerry ser casado com uma psiquiatra, não há piada mais pronta, dentro do filme, do que essa. Já a história de Leopoldo é uma clara crítica ao mundo atual, das celebridades instantâneas, que são adoradas à exasutão por todos, até surgir uma nova mais interessante. Em todo o filme, é Woody Allen sendo Woody Allen, principalmente quando homenageia seu cinema favorito, o italiano. O jovem casal que descobre uma outra Roma, o arquiteto que revisita sua juventude e tenta mudar suas escolhas, a sutileza com que a bela paisagem da cidade envolve seu filme, sem ser mais importante que ele e, como sempre, a bela trilha sonora. O diretor mostra que ainda está em forma, em seu 43º filme, do alto de seus 77 anos de idade, e sempre pronto para sua próxima produção.

Curiosidades finais sobre o filme: Fabio Armiliato, o ator que interpreta Giovani, é um grande tenor italiano de verdade. Woody Allen pensou em dois títulos para seu filme, antes do atual. O primeiro seriaBop Decameron, que não foi bem aceito pelo público italiano. O segundo foi Nero Fiddles, mas logo descartado, por razões óbvias, ficando To Rome with Love, título escolhido pela distribuidora do filme e odiado pelo diretor.

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